Três maneiras como a crise pode tornar as cidades melhores

Ruas esvaziadas são uma chance para transformarmos espaços públicos e deslocamentos

Pessoas andam pela Avenida Paulista no entardecer de um dia que ela está fechada

Se há algo que podemos aprender com a história é que doenças reconfiguram cidades e, muitas vezes, para melhor. Em Londres, no Reino Unido, boa parte do sistema de esgoto surgiu como resposta à malária. O famoso Central Park, em Nova York, foi idealizado como “um pulmão urbano” quando se acreditava que diversas doenças eram transmitidas pelo ar. Além de um problema de saúde pública, a pandemia é uma oportunidade de repensar o planejamento urbano e valorizar o que mais importa: as pessoas. Esse momento delicado pode ser encarado também como uma chance de fazermos dos limões uma limonada.

A retomada de uma agenda sustentável e de novos usos para os espaços públicos se destacam como efeitos positivos da crise até aqui. Uma série de adaptações estão sendo adotadas por governantes, com maior ou menor sucesso, para responder às novas demandas do distanciamento social. O vazio criado por força do isolamento tem permitido testar iniciativas temporárias e permanentes e experimentar seus potenciais de transformação. Confira algumas delas:

Menos carros, mais pessoas

Em diferentes cidades do mundo e de maneira nunca antes vista, ruas até então exclusivas para carros cederam lugar para ciclovias e pedestres. O movimento mostra a viabilidade dos deslocamentos mais limpos e saudáveis e dá pistas importantes sobre como melhorar a convivência entre diferentes modais

A criação de rotas específicas é uma das alternativas. Milão, na Itália, foi uma das primeiras metrópoles globais a dar protagonismo à bicicleta. Anunciou em abril 35 novos quilômetros de vias para caminhar e pedalar. Em toda a Europa, mais de 2 mil quilômetros de ciclovias foram anunciados desde o início da pandemia. Na América do Sul podemos citar políticas semelhantes em Buenos Aires, na Argentina, e em Bogotá, na Colômbia.

Outra possibilidade é a adaptação de ruas e avenidas em espaços destinados a pedestres e ciclistas, sejam trechos inteiros ou faixas. Nos Estados Unidos, esses locais foram usados para o lazer e a prática de esportes. Perímetros foram reservados para crianças brincarem, jogarem bola e andarem de bicicleta, enquanto adultos e idosos aproveitaram para se exercitar. Em Nova York, o programa Open Streets, ou “Ruas Abertas”, do prefeito Bill de Blasio autorizou o fechamento de 160 quilômetros de vias para carros das 8h às 20h, priorizando o uso pelas pessoas. Moradores e associações tentam fazer da decisão provisória uma mudança permanente. A prefeitura já anunciou que irá restringir o trânsito de alguns quarteirões.

No Brasil, as mudanças foram tímidas, com ações pontuais de criação de rotas para pedalar e pouca atenção à melhoria das calçadas. Belo Horizonte e Curitiba anunciaram novas ciclovias temporárias conectadas aos corredores de ônibus. Mas, no geral, os poucos carros rodando se tornaram mais um atrativo para motoristas usarem essa opção em seus trajetos do que uma oportunidade de mudança. A acessibilidade continua sendo um problema, com calçadas sem manutenção, com desníveis ou estreitas demais para dar segurança a idosos ou pessoas com mobilidade reduzida. A aproximação das eleições cria o cenário ideal para discutir maneiras de democratizar o acesso às cidades.

Usos cada vez mais mistos

A popularidade do home office tem feito especialistas questionarem se as cidades ainda precisarão de complexos empresariais como antes e se há futuro para os grandes centros de negócios.

Londres, no Reino Unido, é um desses exemplos. O aumento no desemprego e a grande adesão ao home office levaram muitos moradores a permanecer em casa mesmo com o fim do lockdown. Com isso, bares e restaurantes frequentados na hora do almoço ou depois do expediente seguem vazios, e o centro permanece carente de pessoas.

Em cidades como Sydney, na Austrália, funcionários vão aos escritórios em dias intercalados. A queda na presença e no consumo gerado pelos empregados tem preocupado o governo local, em especial no chamado CDB, o Distrito Central de Negócios.

De acordo com o economista Enrico Moretti, da Universidade de Berkeley, um emprego de alto nível (em um banco ou numa empresa de tecnologia, por exemplo) pode sustentar cinco outros empregos no setor de serviços nos EUA. Sem a presença daquele cliente cotidiano, a sobrevivência das lojinhas de conveniência e restaurantes de bairro fica comprometida.

Uma alternativa é converter parte desses endereços em habitação, ampliando assim o acesso de quem vive longe das áreas centrais e diariamente precisa se submeter a longos trajetos e horas desperdiçadas em congestionamentos. Isso ajudaria principalmente na revitalização de áreas bem dotadas de infraestrutura, mas carentes de moradores. Surge também a possibilidade de usar esses endereços como pequenos centros de distribuição, criando o apoio logístico necessário para apoiar o crescimento das vendas online, que por sua vez podem ser usadas por quem antes dependia de pontos físicos.

Diversificar os usos é também uma forma de encurtar distâncias. A prefeita de Paris Anne Hidalgo foi reeleita em junho para consolidar seu ambicioso plano de permitir a qualquer parisiense realizar tudo o que precisa (compras, trabalho, lazer, estudos) a curtas distâncias. Apelidado de Ville du 1/4h, ou “Cidades 15 minutos”, o projeto propõe que cada bairro seja equipado com comércios e serviços para que os moradores tenham tudo o que precisam a apenas 15 minutos de casa, a pé ou de bicicleta.

Agenda sustentável

A pausa abrupta no ritmo das cidades trouxe a rara oportunidade de termos um céu mais limpo e de respirarmos um ar mais puro. Estimativas do professor Marshall Burke, da Universidade Stanford, apontam que a redução de poluentes na China tenha poupado cerca de 50 mil vidas entre janeiro e abril. Na época o número superava o de vítimas de coronavírus no país, que era de 3.400 óbitos. A cada ano cerca de 7 milhões de pessoas morrem prematuramente por causa da poluição do ar, motivando muitos gestores a levantar uma bandeira sustentável para as cidades.

Em Paris, o intuito é cultivar mais árvores com a ajuda dos moradores. Já Londres, considerada em 2019 a primeira cidade-parque nacional do mundo, quer aprovar pacotes de incentivo a negócios e empresas verdes.

Na bolsa e nos balanços financeiros, empresas vêm sendo pressionadas a adotar critérios de responsabilidade ambiental, social e de governança corporativa em suas operações, ou ESG, na sigla em inglês. O comprometimento com modelos mais sustentáveis já é uma agenda do setor financeiro, motivando decisões dos grandes investidores globais e de governantes de vários países. Cada vez mais, acionistas, investidores e consumidores exigem novas formas de atuação a partir de novas relações de consumo, de trabalho e do uso de recursos naturais, e isso é um caminho sem volta.

Se mudanças são inevitáveis, que sejam encaradas como uma chance importante de aprendermos a criar lugares melhores, com mais qualidade de vida e eficiência.

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