Comércios e serviços apostam em ruas e calçadas para resistirem à crise

Espaços públicos se tornam aliados de primeira hora de empreendedores que tentam retomar as atividades

Moça mexe em seu computador sentada em mesa ao ar livre

Há cidades onde a economia local se equipara à de países inteiros. Outras respondem sozinhas por parte importante dos resultados nacionais. Com a pandemia de coronavírus, muitas delas sofreram um duro golpe não só do ponto de vista de saúde pública, mas também econômico. Isso porque em larga medida os resultados financeiros dependem de algo bastante simples: a circulação de pessoas nas ruas e calçadas. Sem elas, o setor de comércio e serviços, coração pulsante dos centros urbanos, se tornou um dos mais afetados pela pandemia.

A queda de demanda se explica pela combinação de isolamento social e crise econômica: o desemprego, as escolas e universidades fechadas, os escritórios fechados ou operando remotamente tiraram as pessoas das ruas, reduzindo a clientela a zero ou quase isso.

A saída para esta situação está justamente na versatilidade de ruas e calçadas e na sua capacidade de atrair pessoas sem abrir mão do isolamento social.
“Fomos ver o que está sendo feito no mundo inteiro e o que pode ser mais efetivo sob o ponto de vista local”, afirma Fernando Chucre, Secretário de Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de São Paulo, que vêm concentrando esforços na sobrevivência dos pequenos negócios, especialmente os gastronômicos, que passaram meses fechados. Assim surgiu o projeto Ocupa Rua, que busca organizar e padronizar o uso das vias como forma de ampliar a capacidade de atendimento e a segurança oferecida nesses endereços. Bares, restaurantes e cafés expandiram seus serviços para o lado de fora, tendo no uso das calçadas sua principal estratégia para garantir o distanciamento social.

A ideia não é novidade e lembra muito os parklets, estruturas temporárias instaladas em vagas de estacionamento nas vias públicas. A proposta é usar esses espaços para acomodar mesas e cadeiras, com limite de quatro pessoas por mesa. Os custos são bancados pela iniciativa privada, que pode expor sua marca como contrapartida. A cidade determina ocupação máxima de 40% da capacidade dos estabelecimentos.

O modelo tem sido aplaudido por muitos empreendedores, mas também recebido algumas críticas. Comerciantes relatam dificuldade de abastecimento e se queixam de que as estruturas se tornaram obstáculos ao acesso.

Em Nova York, quase dez mil restaurantes já abriram suas portas para transformar as calçadas em verdadeiras salas de jantar ao ar livre. Paris e Montreal também estão entre as cidades que se tornaram especialmente convidativas para quem quer comer e beber na rua. E aí veio também outro problema: gente demais onde deveria haver pouca. No Soho, um dos bairros mais boêmios de Londres, ruas e quadras inteiras foram tomadas por visitantes, gerando aglomerações duramente criticadas pelas autoridades.

Em Hoboken, nos Estados Unidos, o programa de verão Summer Streets tem bloqueado vias específicas por horas ou até dias, instalando mesas ao ar livre e bancadas para que vendedores possam expor seus produtos nas calçadas.

Definir regras e monitorar o funcionamento são fundamentais para garantir a segurança e a convivência harmônica entre empreendedores, clientes e pedestres. “Vamos disponibilizar um manual online com regras e instruções para que estabelecimentos e coletivos possam contribuir”, afirma o secretário Chucre.

Com o tempo, iniciativas assim podem ajudar na valorização da paisagem urbana e dos percursos a pé, contribuindo para que a economia urbana encontre seu caminho e resista às dificuldades da pandemia.

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