As diferenças de gênero na mobilidade

Enquanto eles andam de carro e são diretos, elas realizam várias tarefas de transporte público ao longo do caminho

Homens e mulheres se locomovem de forma diferente. Vários estudos mostram que enquanto os homens fazem uma viagem mais linear, casa-trabalho, com um único meio de transporte (normalmente o carro), a mobilidade feminina demanda flexibilidade. É caracterizada pelo encadeamento de viagens e mais pressionada pelo tempo, já que são normalmente responsáveis pelas tarefas domésticas e familiares, além do trabalho. O perfil da mobilidade delas no Brasil se repete pelo restante do mundo: fazem mais viagens que os homens por meio do transporte coletivo ou a pé – ou uma combinação dos dois – e as principais motivações são, além de trabalho, compromissos com educação e saúde. E enquanto os homens privilegiam velocidade, segurança é um fator fundamental na viagem delas.

A pandemia tem ressaltado como pequenas mudanças já tornam as cidades mais amigáveis para elas. Com menos carros nas ruas, em Nova York, por exemplo, as viagens feitas de bicicleta aumentaram 80% em julho, em comparação com o mesmo mês do ano passado. E as mulheres foram as principais responsáveis: o uso entre elas cresceu 147% contra 68% entre os homens. Nos EUA, durante a maior parte da última década, os ciclistas do sexo masculino superaram o número das ciclistas em três para um. Os motivos são vários: desde a resistência de ainda aceitar mulheres ciclistas até a falta de segurança para os próprios ciclistas e ruas pouco iluminadas que podem contribuir para casos de violência sexual e assédio. Não à toa, o uso dos carros por aplicativo cresceu principalmente entre o público feminino durante a pandemia. No Brasil, saltou de 54% para 67% entre as passageiras da 99.

Algumas cidades já tem levado em conta essas diferenças. Buenos Aires, por exemplo, desde o ano passado, criou um plano específico de ações para resolver a desigualdade de gênero na mobilidade. Só com a criação de faixas exclusivas para ciclistas em duas avenidas da cidade, o número de mulheres em bicicletas dobrou.

Resolver a questão da desigualdade em relação à mobilidade significa ainda melhorar o acesso a outros direitos. Um levantamento de 2019 do Instituto Patrícia Galvão e do Instituto Locomotiva apontou que 72% das mulheres que trabalham e/ou estudam, o tempo gasto no deslocamento entre sua casa e o trabalho/instituição de ensino é um fator decisivo para aceitar um emprego ou permanecer nele. E quase metade das entrevistadas afirmou não se sentirem confiantes para usar os meios de transporte sem sofrer assédio.

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