De parklets a áreas de embarque, ruas precisam ser usadas pelas pessoas

Para especialistas, vagas de estacionamento no meio-fio devem ser encaradas como espaços públicos

Ruas e calçadas respondem pela maior parte dos espaços públicos da cidade, mas nem sempre são lembradas como tal. Ocupadas por veículos e muitas vezes usadas como estacionamento, acabam servindo mais a poucos motorizados do que a muitos pedestres. O distanciamento social exigido pela pandemia evidenciou a dificuldade de se locomover em segurança em calçadas estreitas e desviando de postes, degraus e lixeiras. E as vagas no meio-fio, que poderiam ser usadas para dar mais conforto e segurança aos pedestres, atendem apenas aos motoristas dos veículos ali estacionados.

Só na capital paulista, vagas públicas de estacionamento representam aproximadamente 5 milhões de metros quadrados, o equivalente a mais de três Parques Ibirapueras. Os dados fazem parte da pesquisa “A Cidade Estacionada”, conduzida pelo especialista em gestão pública João Melhado. Ao analisar a gestão do meio-fio e do uso rotativo pago, chamado de Zona Azul, o pesquisador percebeu como esses espaços são ainda subutilizados.

“Primeiro, precisamos entender se essas vagas não podem servir mais do que ao transporte público individual, tornando-se calçadas maiores, faixas de ônibus ou ciclovias. Segundo, quando o estacionamento for de fato necessário, precisamos tarifá-lo corretamente para que a gestão pública consiga investir os recursos em políticas alternativas de mobilidade”, explica.

Segundo Melhado, é preciso adaptar os espaço urbano às novas demandas da população e incentivar modais que não beneficiem apenas uma parcela específica, como os motoristas privados. Ao contrário das viagens particulares, que requerem um ponto de parada, as corridas compartilhadas mantêm os veículos em circulação e evitam o desperdício do espaço público. “Hoje, em vez de vagas pagas, faz muito mais sentido dedicarmos alguns espaços do quarteirão às áreas de embarque e desembarque dos passageiros de aplicativos”, afirma.

O uso das vagas de meio-fio já vinha sendo questionado pelos parklets, modelo adotado pela primeira vez no Brasil — e na América Latina — em 2013, em São Paulo. Trata-se de uma estrutura temporária que ocupa a área que serviria aos carros estacionados para ampliar as calçadas, proporcionar espaços de convívio e devolver as ruas para as pessoas. “Quando foram instalados, percebemos que não estávamos tirando a vaga de carros, mas sim que os carros estavam tomando o espaço de 300 a 400 pessoas por dia”, diz Lincoln Paiva, Presidente do Instituto Mobilidade Verde, que participou do projeto pioneiro.

Responsável por trazer a ideia para o país, o urbanista reforça a importância de incentivar espaços voltados aos pedestres e ao caminhar: “O ir e vir só pode existir em espaços públicos. Por isso, não se pode separar uma rua de uma praça ou de um parque. Precisamos conectar esses espaços de forma que a mobilidade seja uma experiência coletiva, confortável e segura”.

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