A mobilidade, o urbano e o conhecimento

Victor Callil*

Mulher caminha pelo canteiro central da Avenida Paulista

Se locomover pelas cidades não é algo óbvio. Embora possa parecer que façamos nossos trajetos cotidianos de maneira inconsciente, peguemos o ônibus de maneira automática, carreguemos o Bilhete Único (ou qualquer outro cartão de transporte) de modo corriqueiro, tudo isso não se construiu com base na intuição. Compreender as razões que levam a essas escolhas é o primeiro passo para a formulação de boas políticas públicas. A produção de conhecimento no campo da mobilidade urbana é algo de extrema importância para que se possa planejar, operar, financiar e administrar os diversos modais de transporte, sejam eles públicos ou privados, ativos ou motorizados.

Dessa forma, o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) tem dado sua contribuição ao assumir a produção e a coordenação de estudos de abrangência nacional capazes de aprofundar e ampliar o conhecimento e assim oferecer subsídio à tomada de decisões relacionadas à maneira como nos deslocamos nas cidades.

Há oito anos realizamos uma série de iniciativas com intuito de compreender as potencialidades dos deslocamentos realizados de bicicleta, por meio de uma parceria firmada com o Itaú. Produzimos estudos sobre o uso dos sistemas de bicicleta compartilhada, análises de políticas públicas cicloviárias, investigações com gestores públicos de diversas capitais, trabalhos de contagem de ciclistas e, mais recentemente, dois projetos inovadores para o tema: o dimensionamento do impacto social do uso da bicicleta em cidades brasileiras e o Desafio Mobilidade Itaú-Cebrap, um programa de formação de pesquisadores para a elaboração de artigos científicos sobre mobilidade urbana por bicicleta. Este último resultando sempre em uma publicação com 5 trabalhos inéditos no tema. Este ano estamos na quarta edição do programa e, consequentemente, iremos para o quarto livro, contribuindo assim com 20 artigos no total para a produção de conhecimento na área.

Nos últimos três anos, ampliamos as temáticas abordadas e as parcerias na elaboração de pesquisas em mobilidade urbana. Manifestações sociais com base nas demandas de transporte, acesso à modais de alta capacidade por modos ativos, mobilidade a pé, transporte público, entre outros, são temáticas que têm sido desenvolvidas a partir da soma de novos parceiros como Ciclocidade e Instituto Clima e Sociedade, por exemplo.

Neste ano ainda, acrescentamos ao nosso escopo um novo tema: o uso de aplicativos nas cidades brasileiras. A partir de uma parceria com a 99, estamos em curso com o Desafio MobApp 2020, no qual selecionamos cinco propostas de artigos acadêmicos inéditos, contemplando seus proponentes com bolsa de estudos, cursos e oficinas sobre métodos e técnicas de pesquisa. Ao final, os artigos serão reunidos em uma publicação que visa enriquecer as referências disponíveis no assunto.

O momento não poderia ser mais instigante para a produção de conhecimento em mobilidade urbana nas mais diversas frentes. No atual contexto da pandemia, a crise econômica fez com que o número de passageiros do transporte público nas cidades caísse de modo drástico, bem como a arrecadação municipal. A redução de recursos oriundos da bilhetagem — principal mecanismo pelo qual o transporte público se paga — tem levantado uma série de questões sobre como viabilizar a existência desse serviço vital para as cidades. Um arsenal de estudos já realizados dentro e fora do Brasil tem sido mobilizado e outros tantos produzidos para dar conta dessa discussão.

De modo mais amplo, o incentivo ao uso de meios motorizados individuais nas metrópoles brasileiras na segunda metade do século XX consolidou a ideia de que a cidade é um espaço de passagem. A despeito de algumas exceções, como Curitiba, é recente na realidade brasileira propostas de políticas públicas urbanas que busquem inverter essa lógica, dando protagonismo à existência e permanência do pedestre e do ciclista nas ruas. O surgimento desse novo olhar para o modo como nos deslocamos nas cidades só foi e é possível mediante um histórico de estudos, pesquisas, críticas e análises que questionam a centralidade do automóvel como símbolo de modernidade, rapidez, agilidade e funcionalidade nos espaços urbanos.

Da mesma forma, entender a importância do transporte ativo como política de saúde é algo recente e ainda pouco explorado na realidade urbana brasileira. Os benefícios ambientais, urbanos e econômicos que resultam da presença em larga escala de pessoas a pé e de bicicleta nas ruas ainda é pouco considerado na elaboração de políticas públicas . Entretanto é um campo dotado de estudos consistentes que ajudam a traçar caminhos na direção de uma cidade mais humana.

Podemos citar estudos de base tecnológica que têm trazido inovações importantes para o campo da mobilidade. Motores menos poluentes e mais silenciosos para veículos apontam para uma cidade menos barulhenta e mais atrativa para a população como um todo. Estudos de natureza tecnológica também resultaram no surgimento de serviços de compartilhamento de modais, a priori individuais, como bicicletas, patinetes, scooters e mesmo automóveis. Não é preciso ter uma bicicleta para cumprir parte do trajeto pedalando. Esses serviços são resultado de estudos multidisciplinares que atravessam tanto a materialidade impressa na análise do tecido urbano quanto o desenvolvimento de plataformas virtuais sobre as quais eles são oferecidos.

Desta forma, a mobilidade urbana, concebida como o complexo de deslocamentos da população sobre o território das cidades é uma realidade em eterna transição. Estudos, pesquisas, números, dados, ideias, discussões, contradições e debates são peças fundamentais para que possamos construir e lutar por uma cidade mais humana hoje, amanhã e depois.

*Victor Callil é coordenador de pesquisas de mobilidade urbana do Núcleo de Desenvolvimento do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), onde desde 2012 atua na produção de pesquisas quantitativas e qualitativas no campo da mobilidade urbana. É mestre em Sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas USP (2015). Pós-graduado em pesquisa de marketing, mídia e opinião pública pela Fundação Escola de Sociologia e Política (FESP-SP). Bacharel em Turismo pela Universidade Estadual Paulista (UNESP).

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