A micromobilidade e o futuro de nossas cidades

Bicicletas, patinetes e outros veículos leves – entenda a micromobilidade

 

Por Victor Andrade*

Nossas cidades têm assistido a uma transformação na mobilidade evidenciada pela presença cada vez maior de bicicletas, patinetes e outros veículos levíssimos nas ruas. Desde 2017, esse fenômeno vem sendo chamado pelo nome de “micromobilidade” como uma nova forma de organizar os deslocamentos cotidianos e apresentado como parte da solução para uma mobilidade urbana mais sustentável. O prefixo ‘micro’ (pequeno), associado ao termo ‘mobilidade’, significa ‘transporte mínimo’. Para além disso, o termo designa um fenômeno de mobilidade bastante abrangente, que engloba trajetos urbanos realizados em velocidades baixas, mediados por equipamentos leves e fáceis de operar e, geralmente, conectados a tecnologia de dados e informação. Eles são usados, muitas das vezes, em combinação com outros modos de transporte nos chamados deslocamentos de primeira e/ou última milha e operacionalizados em sistemas que podem ser públicos (regulados pelo poder municipal) ou privados.

A micromobilidade aparece como incentivo estratégico ao transporte ambientalmente correto – através de tecnologias ecológicas progressivamente mais sustentáveis – e como valorização de um modelo mais democrático de cidade voltado à escala humana em contraposição ao legado do planejamento urbano rodoviarista. Esse modelo, hegemônico ao longo do século XX, foi responsável por trazer consequências perversas para o meio ambiente, para a economia urbana e a saúde da nossa população.

Com diferentes formatos de operação e gestão, os serviços de micromobilidade têm se tornado cada vez mais sofisticados tanto na interface com usuários (mediante deslocamentos sob demanda), mas também na interação com sistemas inteligentes de dados e no fortalecimento da lógica da economia compartilhada. Os sistemas de compartilhamento consolidaram a micromobilidade como exemplo de “mobilidade como serviço” e, agora, há a urgência de que as cidades comecem a desenvolver políticas considerando a micromobilidade como parte essencial do sistema de transporte – através de integração de modos de transporte, infraestruturas e tarifas.

Esforços neste sentido já são realidade no Brasil: 26 cidades de norte a sul do país já contavam com 53 sistemas de micromobilidade em operação em 2019, trazendo como benefício ambiental 2.989 toneladas de CO2 evitadas anualmente e intensidade de uso que ultrapassou os 107 milhões de quilômetros percorridos no mesmo período, segundo dados da Plataforma Micromobilidade Brasil.org, desenvolvida pelo Laboratório de Mobilidade Sustentável (LABMOB), da UFRJ.

Após o auge na oferta de serviços de micromobilidade durante 2019, o ano de 2020 iniciou-se com uma expressiva diminuição desse mercado no Brasil, seja pelos impactos da pandemia de Covid-19, seja pelas necessidades de readequação de viabilidade do negócio, incluindo novas estratégias de operação e priorização de algumas cidades. Neste ano, pelo menos 13 cidades brasileiras tiveram suspensão dos serviços de bicicleta compartilhada, enquanto os serviços de patinetes só continuaram funcionando em três capitais brasileiras.

Apesar dos desafios apresentados, a expansão da micromobilidade é chave para um cenário de esperança para viabilizar a vida urbana, porque nos aproxima de um futuro de cidades mais democráticas e inteligentes. Hoje, já existem sistemas de micromobilidade voltados a diferentes públicos-alvo, tanto nas centralidades como nas periferias. Desde o baixo custo oferecido em comparação a outros modos (passando por condições de maior segurança e praticidade para os usuários), chegando até questões básicas como a flexibilidade de percursos, intermodalidade, entre outras conveniências, a micromobilidade demonstra uma capacidade de alcançar um público bastante diverso que encontra no seu uso o diferencial de uma mobilidade mais acessível e permeável. Viva a cidade sustentável!

 

*Victor Andrade é Arquiteto e urbanista e coordenador do LABMOB, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), com pós-doutorado em Urbanismo Sustentável na Escola de Arquitetura da Academia Real Dinamarquesa de Belas Artes. Foi Professor Associado da Universidade de Aalborg e é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/UFRJ) e do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (PROURB/UFRJ). Desenvolveu o maior projeto de pesquisa em transporte ativo na Escandinávia, o “Bikeability”

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